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23.5.04

JOSÉ


Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?




Recados : ou

13.5.04
Pois é...

De repente nos deparamos com lembranças que fazem parte de um passado.
E não mais que de repente nos encontramos com a velhice, a da idade, já entrando em nossa vida.
Sem ter muita idéia em que momento exato houve a transição.

clarice ge

Recordo...

Mario Quintana

"Recordo ainda... e nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas, aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de repente!... "



Recados : ou

9.5.04
Em movimento...

Busco contínuamente alguma coisa.
Dentro de um olhar, um silêncio, um jardim.
Os olhares estão cada vez mais vazios de expressão.
As pessoas aprenderam a camuflar seus olhares.
Alguns silêncios são plenos de ruídos e a mente se confunde com suas mensagens.
Ah, o jardim me acolhe, me sorri, me perfuma a alma.
O jardim me protege e me presenteia.

clarice ge


Recados : ou

4.5.04
Envelhecer

Em que momento nos damos conta que estamos mais velhos?
Tem uma maneira filosófica de responder?
Seriam aqueles momentos difíceis que enfrentamos no decorrer de nossa vida, que nos deixam mais calejados e até mais fortes?
Momentos de dificuldades, de desilusões. De perdas.
A gente vai envelhecendo as vezes devagarinho, as vezes muito rápido. A gente nem se dá conta.
Mas quando percebemos que realmente estamos com muito passado para trás, menos futuro a nossa frente, que nossos cabelos estáo embranquecendo cada vez mais rápido, nossos corpos mais vagarosos e flácidos.
A gente de repente entende que aqueles sonhos ainda não realizados já tem tempo quase esgotado.

clarice ge


Recados : ou


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